Ícones são feitos de momentos: quanto maiores e mais mágicos esses momentos, melhor. Sem um momento que confirme sua grandeza, um jogador não passa de mais um profissional realizando uma tarefa, e a chuteira não passa de uma peça presa aos pés desse jogador.

Um verdadeiro ícone surge quando um jogador e sua chuteira se unem para criar um momento especial, daqueles que fazem as gerações futuras estudarem vídeos e imagens do feito, como se fosse uma escritura sagrada ou o molde para uma escultura lendária.

A chuteira comemorou 15 anos em 2013 e, nesse ano, completa os seus 20 anos de história (Divulgação)

UMA PRIMEIRA IMPRESSÃO INESQUECÍVEL

Ninguém duvida que a Nike Mercurial é uma lenda. Desenhada para garantir velocidade explosiva e o mais alto desempenho, ela estreou em 1998 nos pés do fenomenal atacante brasileiro Ronaldo, na França, durante o maior torneio do futebol mundial.

Foi com a R9 que Ronaldo marcou o primeiro gol da história a bordo de uma chuteira Mercurial – mais precisamente, na cidade de Nantes, em 16 de junho, quando encontrou uma brecha na defesa da seleção marroquina, fez um meio-voleio e mandou um petardo para dentro da rede. O gol abriu um placar que terminaria em 3 a 0.

Desde então, os mais geniais artilheiros do futebol escolheram a Mercurial para fazer lances mágicos, subindo o sarrafo dos grandes feitos do esporte. Em 2006, Ronaldo firmou de vez seu posto na história ao estabelecer o que, na época, era o recorde de gols na competição mundial: marcou 15 vezes.

UM GOL TÃO LINDO QUE MERECEU UM TROFÉU

Mas é claro que o brasileiro não foi o único Ronaldo a hipnotizar plateias a bordo de uma Mercurial. No dia 15 de abril de 2009, jogando na Inglaterra, o atacante português Cristiano Ronaldo deixou estarrecida a defesa de um dos maiores times de seu país natal.

Aos seis minutos de jogo, em apenas dois toques, ele encheu o pé pouco depois da linha do meio-campo e fez a bola balançar a rede como se fosse uma bala de canhão. A mesma situação, com jogadores menores, teria possivelmente terminado numa lesão ou num chute inofensivo, direto nas luvas do goleiro.

Nos pés de Cristiano Ronaldo, porém, esse estonteante momento garantiu a vitória na partida e deu a CR7 o primeiro prêmio Puskás para o gol mais bonito daquele ano.

Naquele mesmo ano, Cristiano Ronaldo deixou a Inglaterra e foi jogar na capital da Espanha. Munido de suas Mercurials, ele continuou usando a chuteira que seria considerada a melhor de todos os tempos – tanto em competições de times europeus quanto em embates mundiais.

Depois de deixar todos de queixo caído com seu gol de longa distância, ele experimentou dois momentos decisivos de sua carreira ao bater da marca do pênalti. No dia 24 de maio de 2014, na final realizada em Lisboa entre duas equipes madrilenas, Ronaldo botou o ponto final numa vitória decidida na prorrogação, com uma cobrança cirúrgica que fez o goleiro cair para o lado errado e deu à equipe do artilheiro português “La Decima” – o cobiçado e histórico décimo título no campeonato.

Dois anos depois, em 28 de maio, em Milão, ao enfrentar os mesmos rivais, Ronaldo acrescentou o décimo primeiro título a essa lista. A partida terminou empatada, foi para os pênaltis e, mais uma vez, Cristiano Ronaldo mandou o goleiro para um lado e a bola para o outro. Na comemoração, arrancou e rasgou a camisa branca da equipe.

Gol do décimo primeiro título do Real Madrid feito por CR7 (PIERRE-PHILIPPE MARCOU AFP)

QUANDO AS CHANCES SÃO PEQUENAS, O GOL É AINDA MELHOR

Em 2011, a Mercurial esteve mais uma vez no centro das atenções. Desta vez o vencedor do prêmio Puskás da FIFA foi para a jovem estrela ascendente: Neymar.

No dia 27 daquele ano, numa partida realizada em Santos contra o astro Ronaldinho (num dos jogos mais inesquecíveis da história do torneio brasileiro), o ainda adolescente Neymar recebeu a bola na lateral e dançou com a bola.

Ele deixou seis zagueiros tontos, passou para um colega de time e logo a recebeu de volta, avançou para o meio-campo e chegou à pequena área, driblando mais dois zagueiros e tocando por cima do goleiro. Foi isso o que Pelé chamou de “jogo bonito”.

Mas nem mesmo aquele golaço impressionante pode ser comparado ao presente que Neymar deu a todo o Brasil no dia 20 de agosto de 2016, no Rio – mais uma vez, com uma Mercurial nos pés. Naquele momento, o país – a despeito de toda a tradição no futebol – ainda se recuperava da derrota por 7 X 1 na semifinal contra a Alemanha.

Novamente contra a Alemanha, desta vez numa final que valia medalha, Neymar (que em 2014 não jogou a semi devido a uma lesão) se viu sob os holofotes. Depois de ter marcado o único gol da Seleção durante o jogo – que terminou empatado em 1 a 1 –, Neymar foi para a cobrança de pênaltis com uma vantagem, e com o peso de carregar todo um país nas costas.

Com sua clássica paradinha diante do goleiro alemão, ele chutou a bola no ângulo com o peito do pé e caiu em prantos, redimindo a equipe da derrota de 2014 e dando ao Brasil a primeira medalha de ouro da história.

Neymar comemora após marcar gol de pênalti sobre a Alemanha (Ivan Pacheco/VEJA.com)

UM CHUTE MARAVILHOSO DO MEIO-CAMPO

A meio-campo Carli Lloyd e suas Mercurials não tiveram de esperar tanto tempo para acabar com o nervosismo nacional e sentir o doce sabor da vitória. Em 5 de julho de 2015, Carli e a equipe dos Estados Unidos enfrentaram o Japão em Vancouver, numa reedição da final do torneio anterior (que havia sido vencida pelo Japão na cobrança de pênaltis). Desta vez, porém, não houve dúvidas ou pênaltis.

Carli decidiu a partida num intervalo de apenas 16 minutos, em que marcou três gols – o último deles resultado de um chute do meio-campo que pegou a goleira japonesa desprevenida.

Passados 16 anos da inesquecível comemoração em que Brandi Chastain rasgou a camisa no Rose Bowl, na Califórnia, a seleção feminina dos Estados Unidos finalmente segurou o terceiro troféu de sua história (um recorde) e voltou ao olimpo do esporte.

E A LISTA VAI LONGE

Ao longo de mais de duas décadas, a Nike Mercurial participou de vários momentos icônicos em todo o mundo. Ela estava nos pés de Clint Dempsey quando ele garantiu um improvável 2 a 0 contra a então imbatível Espanha, no dia 24 de junho de 2009, em Bloemfontein, na África do Sul.

Estava nos pés de Eden Hazard no dia 2 de maio de 2016 quando ele marcou o gol de empate que acabou dando o título do campeonato inglês ao time azarão de Jamie Vardy.

Estava nos pés de Alexis Sanchez quando ele fez a cavadinha que deu ao Chile a vitória no torneio mais importante da América do Sul, no dia 4 de julho de 2015, em Santiago – prolongando o jejum que castiga o futebol argentino.

E estava nos pés do americano Christian Pulisic em 17 de abril de 2016, quando ele se tornou o mais jovem jogador estrangeiro a marcar um gol na prestigiosa liga alemã.

Na última década, na Europa, durante os mais importantes campeonatos nacionais do mundo, 110 gols foram marcados por jogadores que usavam a lendária Mercurial – 35 deles no torneio mais importante do continente, só em 2016 (o que faz dessa chuteira uma “artilheira” nessa competição).

Na última temporada das maiores ligas europeias, foram mais de mil gols saídos de chutes dados com a Mercurial. A cada momento de glória, mais um jogador se sente inspirado a amarrar o cadarço de sua Mercurial e partir para o ataque, sonhando um dia se transformar num novo ícone.